Depois do lançamento do Kindle Internacional, eu como um fã de livros, fiquei muito tentado a comprar, mas não fiz. Aguardei os primeiros compradores e as primeiras impressões das cobaias. Com o tempo minha wishlist na Amazon foi crescendo e ficando bastante tentadora. Surgiu a dúvida: Comprar os livros físicos ou partir para o Kindle?

Este ano eu comprei aproximadamente 30 livros na Amazon e mais alguns outros títulos em português em livrarias brasileiras. Fazendo as contas vi que se eu continuasse nesse ritmo, o Kindle iria se pagar, sem contar nos ganhos de conforto e comodidade da nova tecnologia.

A diferença de preço entre o livro físico e a versão para Kindle, nem sempre é gritante, mas em alguns casos chega a 50%. Veja alguns exemplos de livros que comprei em 2009:
| Título | Autor | $ | Kindle |
| Free: The Future of a Radical Price | Chris Anderson | 21.59 | 9.99 |
| Zen and the Art of Motorcycle Maintenance | Robert M. Pirsig | 11.53 | 7.99 |
| Influence | Robert B. Cialdini | 12.23 | 9.99 |
| Purple Cow | Seth Godin | 13.62 | 12.26 |
| Once You’re Lucky, Twice You’re Good | Sarah Lacy | 18.98 | 9.76 |
Fiz as contas para comprar diretamente com a Amazon, mas existia o empecilho do prazo de entrega, por isso pesquisei no MercadoLivre e ali concretizei a compra. Paguei pouco mais de R$1100,00 e pedi que viesse via SEDEX 10. Após a confirmação do pagamento, no dia seguinte antes das dez da manhã, lá estava meu Kindle me aguardando.

As vantagens óbvias:
Economia – Além de ter uma pequena vantagem com o preço do livro, eu não teria que pagar pelo serviço de correio, que é muito caro e a encomenda leva uma eternidade para chegar ao Brasil.
Velocidade – Quando eu quiser, posso comprar um livro e tê-lo imediatamente. Posso fazer isso de forma wireless, ao preço de U$1.99 por livro, ou através do cabo USB, sem qualquer custo adicional. O Kindle utiliza as redes de celular para fazer a transferência de dados, por este motivo existe um contrato direta ou indiretamente entre Amazon e operadoras locais. É um conforto a sua disposição, mas com alternativa caso você não ache justo pagar por isso.
Além desses dois pontos que são óbvios, imaginei que ao utilizar perceberia diversas outras, e foi exatamente o que aconteceu.

Tela
O design do Kindle não é digno de prêmio, mas melhorou muito da versão anterior. A tela, que é um ponto muito importante, é muito boa, muito superior a qualquer página de livro. O contraste com o fundo e a fonte é bastante agradável. Um dos problemas das páginas de livro é a transparência, quando você consegue enxergar o texto das páginas seguintes, mesmo que seja bem sutil, é algo que atrapalha e cansa a vista. Além disso, a cor de fundo não é totalmente branca e a tela é de material fosco, o que auxilia na pouca reflexão da iluminação do ambiente em que você esta. Some isso ao fato do e-ink não emitir luz, o resultado é uma leitura mais agradável e confortável que o livro.
A fonte com serifas utilizada no Kindle é bastante confortável para leitura, se você quiser pode aumenta-la ou diminui-la, as margens de leitura também podem ser ajustadas, tornando as linhas mais curtas ou longas.
Um dos pontos que eu tinha preocupação era o tamanho da tela, de somente seis polegadas, imaginei ao comprar que seria pequena, mas se mostrou perfeita, a ponto de não ter qualquer interesse em comprar o DX, que tem uma tela bem maior.
Peso
Estou utilizando o Kindle com uma capa de couro, vendida pela própria Amazon, e mesmo assim o seu peso é bastante confortável, menos de trezentos gramas. Não cansa nos braços e você não precisa fazer força nas mãos para dobrar o livro ou segurar ele aberto, caso seja uma das pessoas que não admite dobrar um livro. Este conforto faz muita diferença na leitura, já que facilmente você adquire uma posição de conforto e dificilmente se cansa de segura-lo.
Troca de páginas
O ato de trocar de páginas é muito acessível, normalmente seu dedo descansa sobre o botão, tanto do lado esquerdo como direito existe um, o que permite que você esteja segurando o livro de diversas formas e mesmo assim consiga trocar a página sem alterar a posição.
Bateria
O consumo de bateria do Kindle é baixíssimo, o que faz com que a bateria dure por muito tempo, até uma semana com wireless ligado e mais do que isso com o wireless desligado.
Espaço em disco
O espaço de armazenamento certamente não será um problema para mim, já que ele armazena até mil e quinhentos livros e a minha biblioteca atual não chega nem a um terço disso.
Compras e acervo
Efetuar compras na Amazon é muito rápido e prático. Um livro de pouco menos de trezentas páginas chegou em alguns segundos, é bem impressionante.
O acervo da Amazon pra mim é um dos grandes diferenciais, são 360.000 livros, incluindo 101 dos 112 livros do New York Times Best Sellers. Além de diversos jornais e revistas do mundo inteiro.
O conteúdo para o Brasil ainda precisa ser incrementado, só existem dois jornais atualmente, O Globo do RJ e o Zero Hora do RS. Ouvi dizer que a Amazon cobra 70% do valor ofertado de qualquer material, o que certamente faz com que as editoras pensem duas vezes antes de fornecer seu conteúdo no Kindle.
Uma das revistas que eu tinha interesse em assinar no Kindle era a The Economist, porem ela não esta disponível para os Brasileiros. Na tentativa de burlar isso, eu entrei no meu cadastro e editei meu endereço como se tivesse mudado para os Estados Unidos. Automaticamente todo conteúdo apareceu e eu pude assinar a The Economist, com 14 dias grátis.
Diagramação
Neste ponto eu encontrei um problema bastante grave, a diagramação de um jornal ou revista faz parte do diferencial na leitura e isso não foi transportado para o Kindle, pelo menos não na The Economist e no O Globo. Ninguém lê uma revista ou jornal como se lê um livro, você folheia, olha os destaques, diferencia o que é mais importante do que não é, tudo com a ajuda de variação de fonte, bold, itálico, número de colunas, fotografias e assim por diante. O material da The Economist parece um livro, você tem acesso a um sumário, separado pelas seções e entre parênteses o número de artigos dentro de cada uma. O que ler primeiro?

Cadê as páginas?
Além disso, um dos problemas que eu identifiquei em todos os formatos foi a questão da página. Toda vez que você vai ler um artigo em uma revista, você quer saber qual o tamanho do artigo, para ter ideia de quanto tempo levará para concluir. Afinal não é qualquer hora do dia que podemos abrir o Kindle e ler uma matéria de 10 páginas.
O único identificador disponibilizado é o número de palavras no início do artigo, que é algo bastante comum no mundo dos editores, jornalistas e escritores, mas pouco comum para o restante das pessoas. Você também notará que não existe o número da página, o que acarreta na total desorientação.
O problema no livro é similar, mas existem alguns detalhes que facilitam, mas não resolvem o problema. Existe uma linha do tempo na parte de baixo da tela, o que estiver preenchido desta linha, mostra o que você já leu, ao lado encontra-se também o percentual de conclusão. Os círculos ao longo desta linha do tempo marcam o inicio dos capítulos e ao invés dos números das páginas, a Amazon criou um sistema de localização que ninguém consegue entender, é inútil.

Como estamos falando de um livro eletrônico, com recurso de alteração do número de colunas e tamanho de fonte, isso faz com que a quantidade de páginas do livro varie de acordo com essas configurações. Acontece que ao invés de manter o sistema tradicional de páginas, a Amazon resolveu adotar o sistema de localização, onde o valor que aparece abaixo é único, independente das configurações. O lado ruim é que não existe qualquer lógica na sequência, você nunca poderá utiliza-lo para se localizar ao longo do livro. IMHO uma decisão errada por parte da Amazon. Prefiro ser informado ao alterar as configurações que as páginas serão modificadas, melhor do que essa métrica que ninguém entende.
Firmware
O meu Kindle ainda não estava com o último firmware, procurei informações no site da Amazon, baixei o firmware e em menos de cinco minutos estava com a última versão do software.
Nesta última versão o recurso que permite a leitura de pdfs esta presente e foi um dos grandes atrativos para mim. Mas definitivamente uma das decepções, apesar dele apresentar o documento perfeitamente, é impossível aumentar a fonte ou dar zoom, a única alternativa que resta é rotacionar a tela, assim o documento tem mais espaço na horizontal, deixando a fonte um pouco maior. Como trata-se de software, tenho a esperança de que tudo isso melhore em versões futuras.

Text-to-Speech
Em qualquer página de livro, revista ou jornal, existe a possibilidade de ativar o recurso de leitura do texto. Uma voz masculina ou feminina, com três velocidades. Demora um pouco para iniciar, mas depois funciona muito bem, inclusive você não precisa se preocupar com a troca de página, que é feita automaticamente. Em textos em inglês é uma maravilha, em português ou qualquer outro idioma, um desastre, mas pouco me preocupa, pois esse é um recurso que certamente não utilizarei. Este recurso também não funciona com PDFs.
Clippings
Você pode registrar um artigo inteiro em um local chamado My Clippings. Quando você utilizar o menu para “clipar um artigo”, ou como o menu diz, “Clip this article”, este item será criado no home do seu Kindle. Ele nada mais é do que um arquivo texto (documents/My Clippings.txt), que você pode utilizar o cabo USB para copiar.
Notas e Marcas
Para as pessoas que adoram fazer anotações, o Kindle permite que você faça como se fosse uma nota de rodapé. Basta se dirigir até a palavra e escrever. As marcas são ainda mais simples, basta apertar o botão uma vez na palavra de inicio e outra na palavra de fim, tudo será marcado (highlighted). Existe um item no menu, que disponibiliza todas essas anotações e marcas para consulta.

Dicionário
Para os textos em inglês, ao se dirigir a uma palavra, automaticamente o dicionário aparece no rodapé com a explicação da palavra. Se você é daquelas pessoas que não continua ler caso não saiba o significado de uma palavra, isso é uma dádiva.
Mp3
O Kindle pode reproduzir músicas, podcasts ou qualquer arquivo no formato mp3. Basta que você copie para a pasta de audio e utilize a tecla de atalho ALT+SPC para iniciar ou parar e ALT-F para avançar. Esse recurso ainda é experimental.
Browser
Também como recurso experimental existe a navegação em sites como Wikipedia, CNN, CNET, etc. É um browser simples e limitado, mas para uma referência rápida quebra bem o galho.

Seu Kindle tem email
Todo registro de Kindle gera um email único, ele serve para que você envie arquivos de onde estiver e receba diretamente como um livro ou artigo. Apenas tome cuidado com as taxas, para o Brasil o custo é de U$0.99 por MB.
Travamento
Em uma situação meu Kindle travou, parou de responder totalmente, inclusive ao desligar e ligar. Caso isso aconteça, você precisa liga-lo na tomada e aguardar alguns minutos, ele reinicia automaticamente e tudo volta ao normal.
Conclusão
A minha conclusão é muito positiva. Estou lendo mais e de forma mais confortável. Vou economizar no médio prazo e finalmente conseguirei diminuir consideravelmente o espaço utilizado por livros físicos na minha casa. Apesar de gostar muito deles, tenho mais amor a minha saúde e como alérgico a poeira e ácaro, não terei qualquer remorso ao me livrar deles.
Existem pontos a ser melhorados, como na questão da diagramação de revistas e jornais, orientação através de páginas e o incremento de conteúdo para o Brasil.
É um excelente dispositivo, que veio para ficar, daqui pra frente o número de concorrentes já anunciados só beneficiará os clientes, que terão mais recursos, mais estabilidade e melhores preços.
Se você buscava uma recomendação, aqui esta a minha, você certamente não se arrependerá de ter um Kindle.



















